Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Césio-137

O que o Brasil aprendeu com o maior acidente radiológico do mundo em área civil

Capital brasileira foi palco da tragédia com Césio-137, maior acidente do setor fora de usinas nucleares. (Foto: Imagem criada a partir de fotos do acervo disponibilizado pela Secretaria de Saúde de Goiás utilizando ChatGPT)

Ouça este conteúdo

Quase 40 anos depois, o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear voltou ao centro do debate público com a estreia da minissérie Emergência Radioativa, da Netflix, lançada em março deste ano.

Inspirada na tragédia do Césio-137 em Goiânia, a produção reacendeu discussões sobre risco, memória coletiva, protocolos de segurança e o legado deixado às vítimas, ao mesmo tempo em que o poder público toma novas medidas relacionadas às pensões e à preservação histórica.

Em setembro de 1987, a violação de uma fonte de Césio-137, em Goiânia (GO), provocou o maior acidente radiológico já registrado fora de usinas nucleares. As consequências foram agravadas pelo tempo entre o evento e o diagnóstico correto dos sintomas apresentados pelas pessoas que tiveram contato com cloreto de césio.

Quatro décadas depois, o desastre - que teve início após abertura de um aparelho de radioterapia abandonado - ainda é uma referência nas discussões sobre a segurança dos materiais nucleares e radioativos.

O que mudou quase 40 anos depois do acidente com Césio-137

Em 13 setembro de 1987, dois catadores encontraram o equipamento em um antigo prédio e levaram até um ferro-velho na capital goiana, onde o aparelho hospitalar começou a ser desmontado. Dias depois, o núcleo central foi rompido e os trabalhadores do ferro-velho tiveram acesso ao cloreto de césio.

O pó radioativo chamou a atenção do dono do estabelecimento, que levou o elemento químico para casa com objetivo de mostrar o césio para familiares e amigos. O elemento químico contaminou 20 pessoas em estágio crítico com quadros hematológicos e radiodermites (inflamação na pele), além de quatro mortes em decorrência da radiação.

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) foi informada em 29 de setembro de 1987 sobre as pessoas contaminadas com sintomas que, inicialmente, foram confundidos com surtos virais. Antes disso, o Césio-137 se dispersava pelo manuseio direto da fonte de césio, pela comercialização de materiais contaminados e pelos contatos sociais da família do proprietário do ferro-velho.

Segundo o governo goiano, sete áreas foram identificadas como focos da contaminação com necessidade de isolamento das residências. No período de 30 de setembro a 21 de dezembro de 1987, 112,8 mil pessoas foram monitoradas, sendo que 249 pacientes foram identificados com taxas de exposição ao césio.

O depósito de Abadia de Goiás, onde permanecem cerca de 6 mil toneladas de rejeitos contaminados, segue em monitoramento contínuo e é citado por especialistas como um modelo singular de gestão ambiental de longo prazo.

VEJA TAMBÉM:

Físico responsável por detectar Césio-137 inspira personagem principal da série Emergência Radioativa

O físico Walter Mendes Ferreira, ex-coordenador da Cnen, é uma figura central na história do maior acidente radiológico. Ele foi o primeiro a detectar a presença do material radioativo, dando início à complexa operação de resposta.

Em entrevista à Gazeta do Povo, Ferreira afirma que o acidente em Goiânia foi uma "escola" que trouxe ensinamentos e mudanças cruciais para a segurança radiológica em nível global. Ele lembra que os planos de emergência para resposta imediata em casos de contaminação foram alterados, pois estavam focados essencialmente nos acidentes em usinas nucleares. Em 1986, a Ucrânia registrou o maior desastre nuclear da história após a explosão do reator 4 em Chernobyl.

Brasil monitora área com 6 mil toneladas de materiais contaminados pelo Césio-137.

“O evento no Brasil modificou completamente os aspectos regulatórios, com a Cnen realizando uma varredura nacional e tornando a normativa mais rígida, servindo de referência mundial. Qualquer médico que deseja importar material radioativo, por exemplo, enfrenta procedimentos regulatórios muito rigorosos”, comenta.

O acidente do Césio-137 na capital do estado obrigou o país a adotar um sistema para gestão de 6 mil toneladas de rejeitos contaminados, que foram isolados em um grande depósito no município de Abadia de Goiás. Roupas, sapatos e outros objetos contaminados foram levados para o local.

“O depósito está dentro de um parque ambiental na cidade que fica próxima a Goiânia. Isso é único no mundo por sua localização e segue em constante monitoramento, sem riscos”, explica o físico.

Ferreira ressalta que os protocolos de fiscalização e descarte dos equipamentos também foram alterados após o desastre de 1987, que teve início justamente pelo abandono do aparelho com a célula radioativa. “O risco de um acidente similar hoje é muito menor, pois os equipamentos de radioterapia não utilizam mais fontes de Césio-137”, completa.

VEJA TAMBÉM:

Reajuste de pensões e memorial do Césio-137

Há quase 40 anos, o Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves monitora a população que foi exposta ao Césio-137. Segundo o relatório da entidade —  que homenageia a menina de seis anos que morreu por contaminação radioativa em 1987 —  quase 1,1 mil pessoas foram acompanhadas até 2023. Filhos, netos e bisnetos do grupo de pessoas com contaminação comprovada também estão entre os assistidos.

Segundo o órgão, o monitoramento permite analisar a situação de saúde dos radioacidentados e oferecer atendimento clínico com a equipe formada por médicos, enfermeiros, psicólogos e dentistas. Ao longo das décadas, 182 pacientes cadastrados foram a óbito, sendo que 142 homens e 40 mulheres. Além da menina Leide, três pessoas morreram pela contaminação direta do Césio-137 no ano da tragédia.

As pensões dos radioacidentados são previstas por leis estaduais aprovadas em Goiás e pela lei federal 9.425/1996. Em março, a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) aprovou o reajuste de 69,92% nos valores pagos às vítimas, a primeira atualização em sete anos. Com a mudança, os beneficiários diretamente atingidos passam a receber R$ 3.242, enquanto os demais passam a R$ 1.621.

No campo da memória pública, também tramita em Goiânia uma proposta para a criação de um Museu e Memorial do Césio-137, iniciativa que busca preservar documentos, relatos e objetos ligados ao acidente, além de consolidar um espaço permanente de educação sobre segurança radiológica e homenagem às vítimas.

O físico Walter Mendes Ferreira ressalta a necessidade do suporte psicossocial como resposta imediata aos desastres por causa da “psicorradiofobia”, expressão que ele utiliza para descrever o medo do câncer e outros impactos psicológicos nos envolvidos com a tragédia do Césio-137.

Ferreira, que integrou a equipe responsável pela resposta após o desastre em Goiânia, enfatiza a necessidade de ser transparente e informar a população o que está sendo feito para resolver a situação em momentos de crise. “Foi um aprendizado vital sobre a importância da comunicação. O sistema de informação é essencial para impedir o pânico do público durante emergências”, avalia. 

VEJA TAMBÉM:

Você pode se interessar

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.