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Movimento migratório

O perfil de quem desistiu do Brasil e busca uma vida melhor no Paraguai

A Ponte da Amizade simboliza a intensa circulação de pessoas entre Brasil e Paraguai — rota cada vez mais percorrida por brasileiros em busca de trabalho, negócios e custo de vida mais baixo no país vizinho.
A Ponte Internacional da Amizade simboliza a intensa circulação de pessoas entre Brasil e Paraguai — rota cada vez mais percorrida por brasileiros em busca de trabalho, negócios e custo de vida mais baixo no país vizinho. (Foto: Kiko Sierich/Arquivo Gazeta do Povo)

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Brasileira, Gabriela Nascimento ganhava R$ 22 mil por mês como engenheira em Santa Catarina — e boa parte do salário sumia em impostos. Em julho de 2025, ela cruzou a fronteira, comprou um terreno em Ciudad del Este e decidiu recomeçar a vida no Paraguai.

"Percebi que poderia viver bem aqui. Estou regularizando meu registro para atuar na minha área. Comprei um terreno e vou construir minha casa", resume.

Ela não está sozinha. Mais de 263 mil brasileiros vivem no Paraguai — a terceira maior comunidade brasileira no mundo, atrás apenas de Estados Unidos (com cerca de 2,08 milhões de residentes) e Portugal (que reúne aproximadamente 513 mil brasileiros). Só em 2025, mais de 17 mil brasileiros obtiveram residência no país vizinho, conforme mostrou reportagem da Gazeta do Povo.

Esse total, considerado um recorde, reflete uma migração acelerada nos últimos anos, impulsionada por impostos que variam entre 10% e 14% do PIB (Produto Interno Bruto), contra 33% no Brasil, energia até 60% mais barata e produtos como carros que custam metade do preço.

O movimento migratório pelo país vizinho não se limita à busca pelo custo de vida mais baixo. Agências de regularização de imigrantes relatam que muitos brasileiros citam desconfiança com a política brasileira, preocupação com as eleições e o peso da tributação como motivos para atravessar a fronteira.

“As pessoas querem segurança e melhores oportunidades. Também reclamam da tributação e dos valores altos dos produtos básicos”, afirma o empresário Vanderson Paris, que atua há dez anos regularizando brasileiros no Paraguai.

No início, ele atendia apenas empresas e indústrias que chegavam no país pelo regime Maquila, modelo que permite a instalação de empresas estrangeiras no país, com uma série de benefícios. O empresário conta que nos últimos dois anos cresceu a procura por regularização de documentação pelos brasileiros que buscam oportunidade de emprego no Paraguai.

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De acordo com estimativas do Ministério das Relações Exteriores, cerca de 254 mil brasileiros viviam no país em 2022, número que subiu para 263,2 mil em 2023. Os dados fazem parte do levantamento anual “Comunidades Brasileiras no Exterior”, elaborado pelo Itamaraty a partir de informações das representações diplomáticas.

O ministério ressalta que os números são estimativas, já que a chamada matrícula consular (registro voluntário feito por brasileiros nos consulados) não é obrigatória. Por isso, o total efetivo de brasileiros vivendo no exterior tem potencial de ser bem maior do que o registrado oficialmente.

Uma das brasileiras que fez a mudança de país pesando o custo de vida foi Cristina Maria dos Santos, que mora há poucos meses em Ciudad del Este. "Quando você coloca tudo na ponta do lápis, viver aqui acaba sendo mais leve do que no Brasil. Consigo trabalhar mais tranquila, com uma qualidade de vida que em São Paulo não tinha", afirma ela.

A empresária destaca que os preços no Paraguai são mais baixos que os do Brasil e que morando no país consegue fechar as contas no azul. "O preço de eletrônicos, dos uniformes escolares, das mensalidades de universidades, tudo é mais barato. Além disso, as contas básicas pesam menos: água e luz, no geral, são menores", enumera.

Movimento diário na fronteira entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este reflete a rotina de muitos brasileiros que atravessam a divisa para trabalhar ou morar no Paraguai.Movimento diário na fronteira entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este reflete a rotina de muitos brasileiros que atravessam a divisa para trabalhar ou morar no Paraguai. (Foto: Albari Rosa/Arquivo Gazeta do Povo)

Dentro do Paraguai, a presença brasileira se concentra sobretudo em cidades próximas à fronteira ou em centros econômicos importantes. Ciudad del Este, na região que faz divisa com o Brasil, abriga a maior comunidade: cerca de 105 mil brasileiros. Na capital Assunção, a estimativa é de 50 mil, enquanto Encarnación reúne aproximadamente 36 mil brasileiros.

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Brasileira fala sobre diferenças trabalhistas entre os países

Líder de conteúdo de uma loja de eletrônicos no Paraguai, a brasileira Ana Paula Rosa conhece bem as particularidades do mercado de trabalho paraguaio e usa as redes sociais para narrar como é trabalhar no Paraguai. Há seis anos, ela trabalha com marketing digital no país vizinho.

Segundo Rosa, a experiência trouxe crescimento profissional e novas oportunidades. “Foi a escolha certa. Aprendi muita coisa e cresci muito profissionalmente. Ciudad del Este é um mar de possibilidades e tem espaço para todo mundo”, diz.

A especialista em marketing ressalta que o regime de trabalho no Paraguai é diferente do brasileiro. A carga horária semanal chega a 48 horas, e alguns benefícios comuns no Brasil, como vale-alimentação e vale-transporte, não são obrigatórios e muitas empresas não oferecem. “As leis trabalhistas são diferentes, então vale pesquisar bem antes de tomar qualquer decisão”, afirma.

Há também particularidades curiosas do calendário laboral. Ana Paula conta que costuma trabalhar em feriados, mas recebe folga compensatória depois. Outro momento esperado pelos trabalhadores é o chamado “Aguinaldo”, equivalente ao 13º salário pago no país. “A gente espera o ano todo pelo Aguinaldo”, brinca.

As férias também seguem outra lógica: são 12 dias por ano, podendo chegar a 30 dias apenas após dez anos de trabalho na mesma empresa. Apesar das diferenças, ela diz que a experiência tem valido a pena e aconselha quem pensa em seguir o mesmo caminho a conhecer bem o mercado antes de se mudar. “Entender como funciona a sua área aqui faz toda a diferença”, afirma.

Impostos menores e taxação simplificada atraem brasileiros ao Paraguai

O economista Emerson Esteves aponta itens que fazem o custo de vida ser menor no Paraguai do que no Brasil. "A energia elétrica no Paraguai é mais barata que no Brasil. As tarifas podem ser de 40% a 60% menores que as praticadas no mercado brasileiro. O custo reduzido resulta de uma combinação de fatores", aponta o economista.

A produção da usina hidrelétrica binacional da Itaipu Binacional atende cerca de 90% da demanda elétrica do país vizinho. "O sistema paraguaio não adota o modelo de bandeiras tarifárias usado no Brasil", compara ele.

Esteves ressalta que a carga tributária brasileira gira em torno de 33% do Produto Interno Bruto (PIB), uma das maiores entre países emergentes. No Paraguai, esse índice fica entre 10% e 14% do PIB. Isso permite ao governo manter impostos individuais mais baixos.

"No Brasil, o Imposto de Renda da Pessoa Física chega a 27,5%. Já no Paraguai, o Impuesto a la Renta Personal (IRP) tem alíquota máxima de 10%. Essa diferença reduz significativamente o valor pago por quem tem renda mais alta", aponta o economista.

A diferença tributária ajuda a explicar por que muitos produtos são mais baratos no país vizinho. "No Brasil, em um carro de R$ 100 mil, cerca de metade do valor corresponde a impostos. Já no Paraguai, o mesmo modelo pode custar aproximadamente metade do preço, com incidência tributária em torno de 10%", expõe Esteves.

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