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Disputa presidencial

Sem força eleitoral, terceira via vira estratégia do Centrão para negociar poder

Após governador paranaense desistir de concorrer ao Planalto, Kassab fica com duas opções na mesa.
Presidente do PSD, Gilberto Kassab, insistiu que o partido será a terceira via destas eleições (Foto: Mauricio Tonetto/Governo do RS)

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Sem conseguir romper a polarização que domina a disputa presidencial, o Centrão voltou a apostar na terceira via como estratégia política para se manter relevante. O movimento ganhou novo capítulo com o lançamento da candidatura do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) à Presidência da República, na semana passada, após a desistência do governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD).

O cenário eleitoral segue pouco favorável a alternativas fora do eixo principal. A preferência do eleitorado continua concentrada nos dois polos, enquanto nomes associados à terceira via ainda não demonstraram capacidade de se consolidar como opção competitiva — um quadro que reforça o caráter mais estratégico do que eleitoral dessas candidaturas.

Levantamento do Paraná Pesquisas, publicado no dia 30, indica que Lula lidera com 41,3% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro, com 37,8% em um cenário estimulado de primeiro turno. Já nomes associados à terceira via aparecem bem atrás: Caiado tem 3,6% e Romeu Zema (Novo), 3,0%. Renan Santos (Missão) soma 1,2%, enquanto Aldo Rebelo (DC) registra 1,1%.

O instituto Paraná Pesquisas ouviu 2.080 eleitores entre os dias 25 e 28 de março de 2026. O nível de confiança é de 95%, e a margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos. Registro no TSE nº BR-00873/2026.

No dia 23 de março, quando Ratinho desistiu da disputa ao Palácio do Planalto, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, já havia dado o tom que a sigla iria seguir. Em sua visão, o partido insistiria na terceira via.

“O PSD se mantém firme em sua decisão de apresentar aos brasileiros uma candidatura a presidente da República, que com certeza será a ‘melhor via’, contrapondo-se a essa polarização de propostas radicais que em nada contribuem para o que o Brasil precisa”, publicou Kassab em suas redes.

Mas por que o Centrão tem preferência pela terceira via?

Na avaliação de cientistas políticos, a aposta do Centrão na chamada terceira via tem menos relação com a viabilidade eleitoral de um candidato competitivo e mais com uma estratégia de posicionamento. Embora exista, no eleitorado, certo desgaste com a polarização entre direita e esquerda, os especialistas apontam que ainda não surgiu um nome capaz de ocupar esse espaço de forma consistente, o que esvazia, na prática, o discurso de uma alternativa viável fora dos dois polos.

Nesse contexto, a terceira via funciona como instrumento de valorização política. Sem força para lançar uma candidatura própria competitiva, partidos do Centrão tendem a apoiar nomes no primeiro turno para ampliar seu poder de barganha na etapa decisiva da eleição.

Com isso, buscam negociar apoio no segundo turno em troca de espaço no governo, como ministérios, cargos e influência na agenda legislativa — uma lógica que, segundo analistas, tem marcado a atuação do bloco desde a redemocratização.

Terceira via vira instrumento de barganha e não projeto real de poder

Na avaliação do cientista político Alexandre Bandeira, o discurso de alternativa à polarização não se sustenta na prática, já que não há hoje um nome capaz de representar, de fato, o campo do “nem-nem”. “Esse discurso não é para vencer a polarização, é para tentar se posicionar. Mas a questão é que não há aderência”, afirma.

Nesse cenário, a aposta em candidaturas próprias no primeiro turno serviria como mecanismo de valorização política. “O Centrão não tem a preocupação de eleger um presidente. Ele tem a preocupação de ter capital para negociar poder”, diz Bandeira, ao destacar que o bloco busca ampliar seu peso para a etapa decisiva da eleição.

A leitura é semelhante à do cientista político Adriano Cerqueira, professor do Ibmec de Belo Horizonte. Segundo ele, a terceira via funciona como uma forma de partidos do Centrão se fortalecerem diante da polarização, especialmente em um cenário em que a direita já possui um polo consolidado.

Cerqueira avalia que, sem um candidato competitivo, a estratégia tende a ser adiar definições e ganhar poder de negociação. “É uma forma de jogar para frente tentando essa valorização”, diz.

Veja quem já foi considerado terceira via

Seja pela esquerda, pelo centro ou pela direita, o Centrão já flertou ou apostou em diferentes nomes para contrapor os principais candidatos nas últimas eleições presidenciais. Ao longo dos pleitos, essas candidaturas buscaram se apresentar como alternativa à polarização, com resultados variados.

Na eleição de 2010, a terceira via foi representada principalmente por Marina Silva, que se posicionava como uma alternativa à disputa entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). A então candidata recebeu 19.636.359 votos (19,33%) no primeiro turno, consolidando-se como a terceira força política do pleito. Ela não avançou ao segundo turno, vencido por Dilma Rousseff, com 56,05% dos votos válidos.

Em 2014, Marina Silva voltou a ocupar esse espaço, obtendo 22.176.619 votos (21,32%) no primeiro turno. A candidatura reforçou sua posição como alternativa fora da polarização entre PT e PSDB, disputando principalmente o eleitorado insatisfeito com Dilma Rousseff e Aécio Neves.

A eleição de 2018 foi marcada por maior fragmentação da terceira via, com múltiplos candidatos disputando o espaço de alternativa a Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Entre eles estavam Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Marina Silva, Álvaro Dias e João Amoêdo.

Ciro Gomes emergiu como principal nome desse campo, terminando em terceiro lugar, com 12,47% dos votos válidos. Outros candidatos, como Henrique Meirelles e Marina Silva, também buscaram espaço, mas com desempenho inferior.

Em 2022, apesar dos esforços para consolidar uma candidatura única, a terceira via voltou a enfrentar dificuldades. Simone Tebet despontou como principal nome após receber apoio de MDB, PSDB e Cidadania, obtendo 4,16% dos votos válidos. Ciro Gomes, que já havia disputado esse espaço em 2018, recebeu 3,04%, registrando queda significativa.

Sem base popular, terceira via atende à lógica de poder do sistema político

A dificuldade de viabilizar uma candidatura competitiva fora da polarização também está relacionada, segundo especialistas, à ausência de base popular para sustentar essas alternativas. Para o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a chamada terceira via no Brasil costuma surgir de articulações de cúpula, sem conexão orgânica com o eleitorado. “A terceira via no Brasil não é eleitoralmente viável nas circunstâncias atuais”, afirma.

Segundo ele, ao não conseguirem mobilizar apoio popular consistente, partidos e lideranças do Centrão recorrem a candidaturas que funcionam mais como estratégia do que como projeto real de poder. “Eles acabam criando essa performance de campanha [...] com o propósito não tanto de chegar de fato, mas de negociar o seu apoio especialmente no segundo turno”, explica. Nesse contexto, a movimentação serve para ampliar o peso político dentro de um sistema em que “cada apoio conta bastante”.

Essa lógica é aprofundada pelo cientista político Marcelo Suano, que vê o Centrão como parte de uma engrenagem mais ampla do sistema político brasileiro, marcada pelo fisiologismo. Para ele, diferentemente de um centro programático, o bloco atua orientado por interesses de poder. “O centrão é fisiológico porque negocia benefícios”, afirma.

Na avaliação de Suano, a terceira via se encaixa perfeitamente nesse modelo por permitir maior flexibilidade de negociação. “A terceira via cai como uma luva”, diz, ao argumentar que esse tipo de candidatura evita compromissos ideológicos rígidos e facilita acordos com diferentes grupos. Segundo ele, mais do que apresentar um projeto de país, o objetivo é “preservar a máquina” e manter o controle sobre espaços de poder dentro do sistema político.

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