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Editorial

Gilmar Mendes reclama dos “ingratos”

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Gilmar Mendes acha que criticar ministros do STF após ser beneficiado por decisões da corte é ingratidão. (Foto: ChatGPT sobre foto de Luiz Silveira/STF)

Quando não está usando o enorme poder que tem para perseguir seus críticos, o decano do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, está usando as mídias sociais para reclamar da ingratidão de autoridades beneficiadas pelas decisões da corte. O alvo da vez foi Romeu Zema, que deixou o governo de Minas Gerais e é pré-candidato à Presidência da República pelo Novo. O ex-governador havia afirmado que Alexandre de Moraes e Dias Toffoli mereciam não apenas impeachment, mas prisão, devido a suas ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro. Dois dias depois, Gilmar foi ao X lembrar que o STF havia dado ganho de causa a Minas Gerais em ações relativas à recuperação fiscal do estado.

“É, no mínimo, irônico ver quem já geriu o estado de Minas Gerais atacar o STF e seus membros após ter, durante sua gestão, solicitado ao tribunal medidas que permitiram ao governo estadual adiar, por meses, o pagamento de parcelas de sua dívida com a União”, afirmou o ministro, acrescentando que “sem o socorro institucional do STF, o então governador teria enfrentado um cenário de grave desorganização fiscal”. Gilmar acrescentou link para uma reportagem sobre uma nota técnica do Ministério da Fazenda, listando duas decisões do STF que permitiram a Minas ficar 21 meses sem pagar parcelas de sua dívida com a União.

Gilmar Mendes trata decisões passadas em ações judiciais como moeda de troca que compraria o silêncio em relação aos abusos cometidos pelos ministros

Na primeira destas decisões, a ADPF 983, o Supremo reconheceu a omissão da Assembleia Legislativa mineira, que simplesmente não colocou para votação os projetos de lei que instituíam as medidas de ajuste necessárias para a adesão de Minas ao Regime de Recuperação Fiscal, adesão essa que já tinha o aval do governo federal. A segunda decisão veio na Petição 12.074 (apresentada em conjunto por Minas e pela União), prolongando a suspensão dos pagamentos enquanto se concluía a homologação do plano de recuperação. Terminados os prazos concedidos pelas liminares, Minas voltou a pagar as parcelas devidas e, no fim de 2025, aderiu ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), substituto do RRF.

Gilmar Mendes, então, parafraseia Augusto dos Anjos ao dizer que a mão que pede é a mesma que apedreja: quando precisava do Supremo, Zema correu até ele; agora, fala em impeachment e prisão de dois de seus ministros. “É a política do utilitarismo: o STF serve como escudo fiscal e contábil, mas é tratado como vilão quando decide conforme a Constituição”, queixa-se o decano, sem explicar onde a Constituição prevê a blindagem e a autoproteção escancarada dos ministros e, especialmente, sem perceber que o utilitarista, aqui, é ele mesmo, ao tratar decisões passadas em ações judiciais como moeda de troca que compraria o silêncio, da parte de quem obteve ganho de causa no tribunal, em relação aos abusos cometidos por seus membros.

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Uma corte – qualquer corte, da primeira instância ao Supremo – serve para interpretar a lei e fazer justiça, não para funcionar como balcão de troca de favores. O tribunal é o lugar da técnica, não da política. Zema recorreu ao STF porque a corte era a instância que deveria resolver aquela controvérsia específica. Se a sua demanda era justa, os ministros não fizeram mais que a sua obrigação ao julgar corretamente – embora saibamos que nem sempre é fácil a uma autoridade cumprir a obrigação. Mas, ainda que Zema não tivesse razão e os ministros tivessem se equivocado quanto à existência de uma omissão legislativa (e não é nosso objetivo aqui discutir o mérito da disputa), isso não lhe retiraria o direito de criticar os mesmos juízes que decidiram em seu favor no passado, especialmente por motivos completamente alheios aos que motivaram a querela judicial que Gilmar Mendes agora quer usar como um cala-boca.

Ao insinuar hipocrisia ou ingratidão da parte de Romeu Zema, é Gilmar Mendes quem rebaixa o Supremo, que deixa de ser o julgador imparcial para se portar como ator político; as decisões já não são a interpretação técnica da lei e sua aplicação aos fatos, mas apenas questão de conveniência – a mesma citada pelo decano em sua publicação –, de favores feitos esperando-se a retribuição, ainda que ela seja apenas o silêncio diante de uma arbitrariedade. É o famoso “você tem de me ajudar a te ajudar” do sargento Rocha, personagem de Tropa de Elite. Que Gilmar não tenha resistido à tentação de tornar pública sua irritação nesses termos específicos é uma demonstração de como ele amesquinha uma das mais altas funções da República, transformando um chamado para defender a Constituição, a lei e a justiça em um trampolim para um poder absoluto, capaz de dizer até mesmo quem pode criticar e quem pode ser criticado.

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