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Relatório final

“Vorcaro Air”: CPI diz que jatos de banqueiro serviram 4 ministros e voaram para o Gilmarpalooza

Senadores fazem leitura do relatório final da CPI do Crime Organizado (Foto: Saulo Cruz/Agência Senado)

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O relatório final da CPI do Crime Organizado, divulgado nesta terça-feira (14) e assinado pelo relator, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), afirma que jatos executivos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, foram usados por quatro ministros do Supremo Tribunal Federal (STF): Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques.

O serviço de jatos usado pelos ministros foi apelidado no relatório da CPI de "Vorcaro Air". Dois jatinhos executivos foram usados para viagens de retorno do Fórum de Lisboa, evento jurídico que ocorre em Portugal e recebe o apelido pejorativo de Gilmarpalooza.

A investigação da CPI aponta que Vorcaro teria utilizado o poder econômico de sua instituição para influenciar parcelas do aparato estatal por meio de patrocínios, experiências de luxo e a disponibilização sistemática de aeronaves particulares. O uso de aviões ligados a Vorcaro por Moraes havia sido primeiramente noticiado pelo jornal Folha de S.Paulo.

O ministro Alexandre de Moraes teria sido líder em registros de voos. Apontado pelo relatório de Alessandro Vieira como a autoridade que mais utilizou a estrutura aérea ligada ao banqueiro, com oito viagens registradas de maio a outubro de 2025. Esse período coincide com o recebimento de parcelas mensais de R$ 3,6 milhões pelo escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, oriundas de um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master, dos quais R$ 80 milhões teriam sido pagos pelo Master antes de sua liquidação.

Segundo o relatório, sete dos oito deslocamentos foram realizados em jatos da Prime Aviation, empresa da qual Vorcaro era sócio. No dia 7 de agosto de 2025, o ministro e sua esposa teriam viajado em um jato Falcon 2000 pertencente à FSW SPE, sociedade de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e operador financeiro do grupo. Segundo registros da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) enviados à Comissão, a aeronave não possuía autorização para operar como táxi aéreo. O custo dos voos supera o montante de R$ 1 milhão, segundo o relator Alessandro Vieira.

O relatório destaca que a Polícia Federal encontrou mensagens de Vorcaro para sua então noiva relatando encontros com alguém identificado com “Alexandre Moraes” em sua residência em datas imediatamente anteriores aos voos.

Ainda segundo o relatório da CPI, o escritório da esposa do ministro alegou que os voos eram "compensação de honorários", o que o relator classificou como um "circuito fechado" de financiamento indevido.

A apuração sobre o ministro Dias Toffoli revelou, segundo o relator, o que seria um padrão de uso do terminal executivo de Brasília vinculado a aeronaves da rede Master. Ao todo, o ministro acessou o terminal ao menos dez vezes em 2025, sendo que em cinco ocasiões as decolagens teriam envolvido parceiros de Vorcaro.

Entre os destaques está a viagem de Toffoli para Lima, no Peru, para assistir à final da Libertadores 2025 em um jatinho em que também estava o advogado de um executivo do Banco Master.

Ainda segundo Vieira, em 4 de julho de 2025, o ministro embarcou em aeronave da Prime Aviation, que pertenceria a Vorcaro, com destino a Marília (SP), cidade próxima a onde fica o Resort Tayayá. Toffoli confirmou ser sócio da empresa Maridt, que vendeu participação no referido resort por R$ 3,1 milhões para um fundo controlado pelo cunhado de Vorcaro.

Ainda com base no relatório, há registros de voos em aeronaves da Petras Participações, de sócios vinculados ao resort, e da Ibrame, pertencente a um empresário apontado por Vieira como amigo pessoal do magistrado. Moraes e Toffoli foram procurados pela reportagem, mas não se manifestaram sobre os voos até o momento. O espaço segue aberto às manifestações.

No fim de março, o ministro Alexandre de Moraes afirmou que não realizou viagens em aeronaves vinculadas a Daniel Vorcaro, classificando como falsas as informações divulgadas sobre o tema. A manifestação ocorreu após apontamentos sobre supostos voos realizados em 2025, o que foi rechaçado pelo gabinete do magistrado, que tratou o conteúdo como “ilações”.

Em complemento, o escritório de advocacia de sua esposa declarou que utiliza regularmente serviços de táxi aéreo contratados, destacando que eventuais deslocamentos ocorreram dentro de contratos formais e sem qualquer participação ou presença de Vorcaro ou de pessoas ligadas a ele.

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Aeronaves foram fretadas para o Fórum de Lisboa, diz relatório

O relatório também cita a utilização de aeronaves ligadas ao grupo Master pelo ministro Gilmar Mendes em ocasiões específicas, identificadas por meio de cruzamentos de dados.

As ocasiões e os detalhes mencionados no documento indicam um voo em jato da Prime You (Janeiro de 2025). O relatório afirma que o ministro utilizou um jato da empresa Prime You em janeiro do ano passado. O texto ressalta que Daniel Vorcaro era sócio dessa empresa de compartilhamento de bens de luxo.

Em outra situação, teria havido um fretamento de jatinhos para o Fórum de Lisboa, também conhecido como o Gilmarpalooza. O documento aponta que, em relação ao Fórum Jurídico de Lisboa (evento organizado pelo próprio Ministro Gilmar Mendes), a equipe de Vorcaro financiou o fretamento de dois jatinhos de Lisboa para Brasília. Essa operação teve um custo de US$ 232,6 mil (aproximadamente R$ 1,2 milhão na cotação citada).

Além desses voos, o relatório menciona que Vorcaro organizou uma agenda paralela luxuosa em Portugal durante o referido Fórum, incluindo festas, jantares e compras, totalizando gastos de cerca de US$ 1,6 milhão, mais de R$ 8 milhões. O relator utiliza esses fatos para justificar o pedido de indiciamento do ministro por proceder de modo incompatível com a honra, dignidade e decoro de suas funções, classificando a conduta como parte de uma estratégia de "proteção corporativa" e captura institucional.

Gilmar Mendes reagiu ao relatório defendendo que a PGR investigue o relator Alessandro Vieira por possível abuso de autoridade, alegando que o documento promove constrangimento institucional ao propor o indiciamento de integrantes da Corte. O ministro criticou duramente o relatório, classificando-o como uma tentativa de desviar o foco das investigações e inflar o debate político com motivações eleitorais.

O magistrado também questionou a legalidade dos pedidos de indiciamento, argumentando que CPIs não possuem competência para tal medida em casos de crimes de responsabilidade, além de afirmar que há uma tentativa de deslegitimar instrumentos jurídicos como o habeas corpus.

Ao ler na CPI partes do texto do relatório, Vieira disse que Mendes reitera seu modu operandi de fazer ameaças e manifestações truculentas usando a imprensa. Ele também criticou o ministro por supostamente tentar blindar integrantes do STF contra processos de impeachment.

"Tadinho do decano, ele não pode ir de avião normal no aeroporto”, ironizou o senador Magno Malta (PL-ES).

Apesar de não pedir o indiciamento, o nome do ministro Kassio Nunes Marques também integra a lista de autoridades que utilizaram o sistema chamado pelo relator de "Vorcaro Air". O relatório documenta que o magistrado viajou com sua esposa para Maceió em uma aeronave vinculada à estrutura empresarial do banqueiro.

Neste mês de abril, o ministro Nunes Marques se manifestou sobre a viagem em aeronave ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, confirmando que esteve no voo com destino a Maceió, mas afirmando que o deslocamento ocorreu a convite de uma advogada responsável pela organização e contratação do jato.

Segundo o ministro, a viagem teve como finalidade a participação em uma comemoração de aniversário, destacando que não teve nenhum envolvimento com os custos ou com a logística do transporte, atribuindo integralmente à anfitriã a responsabilidade pelo fretamento da aeronave.

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De acordo com o relatório final da CPI, a descoberta das viagens de ministros do STF em aeronaves ligadas a Daniel Vorcaro foi possível graças a um cruzamento de dados.

As informações oficiais que embasaram as conclusões da investigação foram extraídas de registros internos do próprio STF, além de dados do terminal de aviação executiva do aeroporto de Brasília, somados a dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), dados do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), informações do Registro Aeronáutico Brasileiro, assim como mensagens e arquivos extraídos do celular e da nuvem de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal.

Entre os registros que chamam atenção está o de 21 de maio do ano passado. Mensagens indicam um encontro com Alexandre de Moraes na casa de Vorcaro. Na noite seguinte, 22 de maio, o ministro embarcou em aeronave da Prime Aviation de Brasília para São Paulo. No dia 7 de agosto, o ministro teria viajado com sua esposa em um jato Falcon 2000 da empresa FSW SPE (de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro), aeronave que não possuía autorização para operar como táxi aéreo.

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